Calçada à Portuguesa | DVTSTONE

Calçada Portuguesa

A Originalidade da Calçada à Portuguesa

A originalidade da Calçada à Portuguesa confere-lhe um estatuto muito particular no domínio dos pavimentos. Pode ser definida como "um pavimento empedrado, cujos componentes são de pedra natural, com base em calcários e granitos, assentes e dispostos no solo de forma mais ou menos homogénea". Alia as características de durabilidade e de grande beleza estética às da vantagem económica de, utilizando a pedra originalmente aplicada, poder ser restaurada sempre que houver necessidade de realizar trabalhos que obriguem à remoção do pavimento ou de ser reconstruída quando ocorra abatimento de substrato. Tem-se revelado ideal para ser utilizada em zonas de circulação de peões, como em passeios, jardins e habitações, centros comerciais, mas também em ruas e praças com circulação restrita de veículos.

Cada calçada é única, não só porque são diversos os motivos utilizados (motivos geométricos, motivos figurativos, motivos alusivos a actividades ou especifidades regionais ou locais), mas também porque o seu efeito final depende da qualidade da produção e da mestria do artífice encarregado de efetuar o assentamento.

Com efeito, a confecção de um pavimento de Calçada Portuguesa envolve duas fases distintas. A primeira fase corresponde à produção da calçada, transformando a rocha em bruto em paralelipípedos, de reduzida dimensão e com forma regular. A segunda fase consiste no calcetamento, em que se procede à colocação dos paralelipípedos no solo utilizando técnicas adequadas em função das diversas utilizações previstas e obedecendo a padrões variados, muitos deles de agradável efeito, primendo pelo bom gosto artístico e pela harmonia.


Calçada Portuguesa em Basalto

O agrado geral pelos atributos do empedrado de Calçada Portuguesa, aliados à sua funcionalidade, levaram a que o seu uso se alargasse a muitas das cidades portuguesas e das antigas colónias incluindo o Brasil, onde muito rapidamente se generalizou, sobretudo durante o Século XX. Os metres calceteiros portugueses eram chamados para além fronteiras para mostrarem a sua arte e eram depois convidados a ficar por lá... e muitos ficaram, pois as compensações financeiras eram substancialmente maiores.

A o mesmo tempo decorriam exposições, onde Portugal se fazia representar por estes artesãos e aí eram galardoados e reconhecidos pela arte do seu trabalho, como aconteceu em Paris (1900), Rio de Janeiro(1906), Cidade do Cabo(1909), Sevilha (1929 e 1969), entre outras distinções. A atividade cresceu de tal forma que, por volta de 1930, a Câmara de Lisboa tinha a seu encargo, aproximadamente 400 artífices.

à vontade dos homens e à qualidade da mão-de-obra juntava-se então a necessidade de promover estas obras nas cidades, sobretudo nas zonas de maior movimento pedonal e comercial. Rapidamente a ideia "saiu" de Lisboa e se espalhou pelo restante território nacional e por vários países europeus. A funcionalidade aliada à arte criava por todo o mundo autênticas obras-primas, que ao contrario de quase todas as outras estavam à vista de todos.


Calçada Portuguesa Basalto e granito

No Brasil tornou-se uma apreciada referência da Arte Lusa, a ponto de , nos tempos atuais, ter vindo a gerar acirradas polémicas em sua defesa na perspectiva de que constitui um património indiscutível, tal é o sentimento que levou a considerá-la como fazendo parte da sua própria tradição. Com efeito, temos conhecimento de argumentações a favor dos pavimentos de Calçada Portuguesa e do levantamento de movimentos cívicos visando impedir a sua destruição na sequência de reorganizações urbanísticas em Salvador, no Recife e no Rio de Janeiro.

Atualmente, é reconhecida e apreciada internacionalmente como uma bem sucedida manifestação da nossa cultura portuguesa, facto que explica, designadamente, a sua exportação para Espanha, França e outros países da União Europeia, para a Austrália, Estados Unidos, Japão e China, neste caso por influência de Macau. Ainda muito recentemente foi pavimentada uma praça em Bruxelas com recurso a esta nossa apreciada técnica, sendo que para isso foram convidados calceteiros portugueses.


Calçada Portuguesa Porto

Como consequência do reconhecimento da importância da técnica de aplicação da Calçada Portuguesa como manifestação genuinamente nacional, em 1986 foi criada a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa e, em Dezembro de 2006, foi inaugurado um monumento ao calceteiro na Baica pombalina.



História da Calçada à Portuguesa

A Calçada Portuguesa é uma herança histórica da cultura e da tecnologia de construção dos Romanos, de que existem inúmeros vestígios em Portugal, entre eles a Estrada Romana em Alqueidão da Serra, concelho de Porto de Mós.


Calçada Portuguesa Assentamento

A arte romana de empedrar não se limitou à técnica empregue na pavimentação de vias de comunicação; restam entre nós exemplos de magníficos mosaicos dessa época em tesselas, uma técnica de decoração em ligações e contornos formando desenhos de grande perfeição técnica feitos com pequenas pedras quadrangulares de aproximadamente 2 cm x 2 cm geralmente de calcário ou mármore, mas também de vidro ou terracota, encontrando-se em Conimbriga um dos maiores legados desta arte de pavimentação.

O Império Romano contruiu na cidade de Olisipo, hoje Lisboa, estruturas comerciais, industriais, culturais, faculdades, teatros, termas e habitações, tendo sido encontrados pavimentos de tesselas em edificações soterradas no centro da cidade.

São os Romanos que iniciam o uso da pedra como material ao serviço dos exércitos no crescimento da defesa do seu Império, explorando um manancial de oportunidades do seu uso como material de construção e decoração. Povo guerreiro e conquistador, os Romanos criaram uma vasta rede viária para melhor desenvolverem as suas actividades comerciais, bem como para facilitar o transporte de material de guerra e soldados ligando o seu vasto império por pontes e caminhos construidos com pesadas lajes, colocadas contiguamente.

Não tão decorativa como a dos Romanos, a herança Árabe caracteriza-se pelos seus desenhos arabescos através das mudanças estruturais e organizacionais das suas pavimentações, onde é nítido um uso ordenado em sistema de espinha ou espiga para aproveitamento das águas.

É no século XIV que, no reinado de D.João II, nas cidades de Lisboa e Porto a opolência e o luxo trazido pela rentabilidade comercial abre caminhos a uma nova sociedade que leva à criação das chamadas "Ruas Novas" junto às áreas ribeirinhas, onde se concentravam as grandes fortunas e as lojas de mercadorias.

D.João II, encantado com a qualidade dos trabalhos em pedra na cidade do Porto, manda empedrar a Rua Nova da capital, que mais tarde vai dar origem à abertura de pedreiras junto a Cascais, tendo sido celebrados contratos com pescadores dessa zona para o seu transporte. Todavia, foi D.Manuel I, que lhe sucedeu, que ao fim de trinta anos do seu início concluiu a obra da Rua Nova, a qual, com os seus duzentos metros , foi considerada pelos cronistas da época como a mais comercial e internacional das ruas quinhentistas.

O renascimento, que por sua definição é o recuperar de tradições clássicas, havia de revalorizar a pedra como matéria-prima funcional e decorativa.

Com os terramotos de 1531 e 1551 dá-se um novo impulso a novos arruamentos, mas é com o grande terramoto de 1755 que Lisboa iniciou um enorme projecto, não só de reconstrução de edifícios, mas também de abertura de novas ruas e recuperação das antigas.

Com as características de aspecto com que hoje a conhecemos a Calçada Portuguesa teve como seu grande impulsionador o governador do Castelo de S.Jorge em Lisboa entre 1840 e 1846, o tenente-General Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado (1777-1861), que transformou a fortaleza e os seus arredores em lugares de passeio onde foram introduzidas flores, arvoredo e calçada mosaico. O agrado pelo bom gosto e pelo valor estético do empedrado aliados à sua funcionalidade, levaram a CÂmara a reconhecer o excelente trabalho do Engenheiro Militar Eusébio Furtado, profundo conhecedor das técnicas romanas, e a prosseguir com novas iniciativas de carácter paisagístico com relevo para o uso de calçada mosaico. Em 1848, Eusébio Furtado viu aprovado o seu projecto para a Praça do Rossio, uma obra com uma área de 8712 m2 concluida em 323 dias, onde foi introduzido o cacetamento designado "Mar Largo" em homenagem aos descobrimentos portugueses. É no Rossio que um novo reordenamento urbanístico dá lugar a uma circulação mais segura dos transeuntes, através do nascimento do passeio.

A baixa de Lisboa transforma-se com a maioria das suas ruas a serem calcetadas a basalto, entre elas o Largo de Camões em 1867, o Príncipe Real em 1870, a Praça do Município em 1876, o Cais do Sodré em 1877 e o Chiado, finalizado em 1894. A abertura da Avenida da Liberdade dá-se em 1879 e em 1908 chega finalmente ao Marquês de Pombal com largos passeios onde forma introduzidos belos e deslumbrantes tapetes de desenhos, que fazem de Lisboa a cidade referência deste tipo de pavimento artístico.

Surgiu assim, no início do século XX, a Calçada Portuguesa, talvez a maior contribuição do nosso país em matéria de qualidade no "mobilar" dos espaços urbanos, como afirmaram Francisco Pires Amaral e José Santana-Bárbara, autores da obra Mobiliário dos Espaços Urbanos em Portugal.

A Calçada Portuguesa é uma actividade com história e tradição, cuja continuidade se revela para muitos bastante problemática, quer pelo aumento dos custos de manutenção das pedreiras e equipamentos, quer pelas dificuldades ambientais e legislativas que, hoje em dia, as pedreiras enfrentam. De qualquer forma, o uso da Calçada Portuguesa ganhou muitos adeptos nos últimos 15 anos além de novos clientes com novas necessidades que foram e vão surgindo, ao que podemos aliar o surgimento de grandes obras a nível nacional e internacional. A Calçada Portuguesa passou do uso exclusivo em exteriores para a decoração de espaços interiores privados e públicos, quer na construção residencial quer nas zonas comerciais e de escritórios.

"O granito é uma rocha natural em constante mudança,as imagens e elementos aqui apresentados são apenas ilustrativos e deverão ser usados apenas como guia."

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